Orquestra Caipira em duas Partes

 

(Parte 1)

 

No meu quarto em frente ao computador, procurando algo interessante para me entreter percorria páginas e páginas na net sem nenhum sucesso, a agonia provocada pela falta do que fazer. me angustiava, meus poucos amigos estavam em qualquer lugar incomunicável, que nem a base do sedex eu conseguia achá-los, aço que era um complô para me sabotar. Estava cansado dos Pubs de São Paulo, essa modinha new bands invadira a noite paulistana e definitivamente, me estagnou.

 

Num ataque de insanidade repentina, peguei uma grana, coloquei meus headphones e saí, sem rumo, e quando menos imaginava já estava dentro do ônibus para o interior, passaria o final de semana com minha querida vovó. Enquanto sentado naquelas poltronas incomodas rumo ao Vale do Ribeira, eu disfarçadamente me entorpecia com uma garrafa de vinho barato e pensava na vida ao som de Ladies & Gentlemen do  Spiritualized, pensei por algum tempo como seria minha vida sem o rock’n roll, imaginei qual seria a diferença de comportamento se meu gosto musical se embrasileirasse popularmente extrema, logo me tornaria mais um? Meus deus, ó o preconceito aí! Mas sei, música é a base da inteligência, uma pessoa com um gosto musical refinado torna-se uma pessoa atrativa.

 

Esses dias analisando o novo álbum do Primal Scream “Riot City Blues”, tão criticado pela mídia especializada, caracterizado como um álbum sem personalidade, eu percebi que o que tem naquele álbum é mais do que uma afetação alternativa dos seus compositores, é na verdade, uma busca pelo sentido rock’n roll que muitos perderam. Toda aquela fantasia de álbuns diferentes, de uma ruptura de estilos, está na cabeça dos que escrevem, dos que criticam, dos que reprimem, é apenas um álbum do sentimento momentâneo dos caras, e sentimento é verdade, concordo não ser uma obra-prima, mas é o que posso chamar de verdade, é o que eu senti, e rock é isso, verdade.

 

O Eraser do Thom Yorque, primeiro trabalho solo do líder do Radiohead, também não é uma obra-prima, nem tão diferente do KID A e nem tão diferente dos trabalhos do Sigur Rós, mas nota-se a verdade, como o Radiohead é.

 

Deixando a Balela de lado e voltando ao mundo real. Ao chegar em Juqui Very Water City, ou Juquitiba para os mais íntimos, cidadezinha no interior de São Paulo, caminho para Curitiba, notei que naquele momento a cidade estava diferente, as meninas mais maquiadas, os meninos mais engomados, as senhoras mais elegantes, os senhores mais galanteadores, e um som, um som que incomoda, putz, festa Junina. Éca.

 

Ignorei, onde já se viu um rocker como eu dar importância para esse tipo de coisa, eu procurei seguir a cartilha “Como ser rockeiro anos 90” (desatualizado) a risca. Descendo do busão, me dirigi a casa da minha avó em uma velocidade frenética, mas não tinha ninguém, foi aí que lembrei que todo ano ela preparava o Mocotó da festa, logo, ela estaria lá na barraca da Igreja.

 

Respirei fundo, aumentei o volume do meu MP3, Josh Homme e Cia arrebentava meus tímpanos com Lullabies to Paralyse, O suficiente para me desligar do mundo caipira,. Fui pra festa procurar minha avó...

...Chegando lá, não hesitei, um quentão cairia tão bem, afinal a festa também tem seu lado bom – Oi vó, tudo bem? Saudade! - Conversei um pouco com minha vózinha, vi alguns amigos de infância e quando já estava indo embora com a chave de casa, anunciaram uma Orquestra. Curioso como é de Praxe, fui que Orquestra era aquela. Quando olho para o Palco me deparo com quarenta Senhores de chapéu de Palha, cada um com uma viola, isso mesmo, não era violão, nem guitarra, nem contra-baixo, era Viola.

 

continua...

Escrito por Eder Bruno ?s 12h24


[]


 

 

Eu ouço música

 

As palavras soaram como um desafio, nada era mais provocativo que a frase que intercalava as linhas daquela página. Profundamente aborrecido o joguei na montoeira de livros que descansavam maltratados na aresta do quarto, então sentei na poltrona em frente ao televisor com a face emputecida e comecei a longa turnê pelos canais de TV aberta esperando algo de interessante, nos longos 20 minutos de repetição em cada canal eu desanimei e fui a geladeira, abri-a apoiando meu braço sobre a porta e por alguns minutos pensei na vida, num estalo sobrou-me a única opção. A cerveja.

 

Já na varanda em uma cadeira de balanço velho em perfeita partilha de solidão num click apertei o play, onde no desgaste do meu laser rolava o novo álbum do Mombojó e ali eu pude desfrutar da perfeita melancolia pernambucana. Assim nos versos que interpunha cada melodia, eu traduzia meus sentimentos mais remotos.

 

Na primeira faixa eu já percebi a faceta que emplaca minhas vontades quero entrar no seu coração, e nem quero falar só de amor, é como se os caras entendessem os diálogos que eu levo com o meu eu, vivo nessa depressão que nem faz sentido, mas consigo diferenciar da felicidade, o único problema é essa maldita solidão que de vez em quando insisti em aparecer.

 

Durante essa fase eu costumava sentar em frente ao computador e escrever as mais melancólicas poesias, porém decidi sob influência da letra da faixa dois do álbum Homem Espuma – buscar um novo prazer e partindo dessa premissa lutar contra essa maldita solidão. Solidão que indago muitas vezes eu mesmo criar. Será?

 

Eu acho que toda essa sensibilidade, esse sentimentalismo que ouço nas belas letras do Mombojó afetam os meus ares, muitas vezes pro bem, outras para o mal, ruim? Não sei, nunca me esquecerei de uma frase do José Saramago em que o próprio cita a melancolia como algo bom, que eleva a pessoa como ser humano.

 

Vai entender...

 

Mas continuo aqui sentado nessa poltrona vendo os pássaros, analisando as calçadas e perguntando por que a música consegue me desequilibrar quando se trata de sentimentos?

 

EU OUÇO MÚSICA

Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...

Eu ouço música como quem está morto
e sente

um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.

 

Mario Quintana

 

 

Quando essa cerveja acabar vou ouvir MOPTOP, dizem que é bom, veremos...

Escrito por Eder Bruno ?s 15h35


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BRASIL , Sudeste , Homem , de 20 a 25 anos , Música , Cinema e vídeo , tomar uma cervejinha com os amigos.

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